Data de publicação: 24-03-2020 17:21:00

A oportunidade é a alma dos gananciosos

O Boticário - Contagem
Foto: Internet/Reprodução
 
Rui Miguel*
 
Eram 20h37min, eu estava assistindo à TV na sala e, em praticamente todos os canais, passavam notícias sobre a pandemia da Covid-19. Minutos depois, recebo uma ligação inesperada. Pensando bem, eu nunca espero uma ligação, então, todas são inesperadas.
 
Do outro lado da linha, tinha uma voz masculina forte, mas que falava com ternura, como se quisesse me abraçar. Ele iniciou a conversa com alguns dizeres religiosos, logo imaginei que fosse pregação de alguma igreja, mas não era isso, foi apenas para chamar a minha atenção. Eu, curioso, não desliguei. Queria saber aonde aquilo ia chegar. Foi então que a pessoa entrou no assunto da perda de um ente querido. Fiquei surpreso e pensei: “Será que é algum grupo de ajuda que está oferendo consolo às famílias que também perderam um ente querido para a doença?”.
 
Então, fiquei feliz em saber que existem pessoas que se preocupam com o próximo, independentemente de o conhecerem ou não. Isso é altruísmo genuíno, quando você faz as coisas importando-se com os outros e não com o seu status. Mas, enquanto o sorriso de perplexidade ainda estava moldando a minha face devido a esse ato de preocupação, vem a voz da mensagem telefônica e conclui: “Somos especialistas em funerais e vendemos todos os tipos de caixões. E não se preocupe com o seu ente querido, nós nos preocupamos por você”.
 
Sempre queremos tirar proveito de toda situação, mesmo que isso magoe os outros. Aí, você se pergunta: “Mas a funerária está fazendo algo de errado?”. Lógico que não! Ela está fazendo o dever de casa certinho.
 
Como agora a Covid-19 está ceifando vidas de muitas pessoas, todas vão precisar de caixões. Por mais que critiquemos, muitos, infelizmente, precisarão desse serviço. As funerárias são um tipo de empresa que, podem vir crise, problemas na bolsa de valores, pestilências e guerras, nunca vai falir, sempre terá clientes. Não tem jeito, muitos profissionais e empresas crescem durante as crises. Do mesmo jeito que você não pode criticar a empresa de álcool em gel por vender muito nesse tipo de situação, também não pode criticar uma funerária.
 
Todavia, o que é injusto e até uma atitude maldosa é que, no meio dessa pandemia, existem pessoas que se aproveitam não para vender mais, pois isso farão de qualquer jeito, mas, sim, para aumentar o preço dos produtos, criando uma extorsão absurda e sem sentido para nós, consumidores finais. Itens como comida, gasolina e de higiene pessoal sobem de preço vertiginosamente, porque os comerciantes sabem que não temos escolha e precisamos comprá-los.
 
Por mais que eles tenham o direito de fazer o que quiserem e de pôr o preço que bem entenderem – você que decida se quer comprar ou não –, isso é uma falta de amor ao próximo absurda, incalculável, ignorante e ingrata.
 
Sim, ingrata. Porque os clientes que compram naquele supermercado todo dia, que fazem o dono feliz, aquela clientela que ele valoriza (ou diz que valoriza), aqueles mesmos clientes com poder de compra que ele, por meio de marketing comercial, panfletagem e todos os outros tipos de propaganda tentou convencer de que deveriam comprar naquele estabelecimento, são os mesmos que ele agora está extorquindo no maior desplante.
 
Não é normal numa crise de saúde que o mundo está passado você chegar numa feira e o quilo do alho custar R$ 15, ou o leite de uma semana para a outra mudar de R$ 1,79 para R$ 4,90. Com certeza, eles não foram comprados por esses preços. O que aconteceu? As ações do alho foram lá em cima em NY? Ou as vacas tiveram que ser importadas da Suíça? Realmente acredito que seja um egoísmo, uma ganância, uma falta de humanismo detestável.
 
Na hora em que a população mais precisa se unir para lidar com uma crise, os comerciantes, em vez de acharem um jeito de ajudar ao próximo, não, preferem maquinar para saberem como ganhar mais dinheiro.
 
Não estou dizendo que os estabelecimentos têm que sair doando as mercadorias. Estou dizendo que as pessoas tinham que se unir para poder fazer o melhor pelo próximo. Não seria mais sensato o dono de uma rede chegar na TV e dizer: “Estamos congelando todos os preços até o fim da pandemia”?
 
No momento em que surge a oportunidade de muitas pessoas praticarem o amor e não apenas dizerem, elas são vencidas por uma ganância desmedida e sem sentido. Uma forma de sempre querer ganhar e estar na frente. Uma falsa ideia de que passar os outros para trás trará fama de sábio do empreendedorismo.
 
O ser humano é assim. É liderado pela sorte da ganância, que é o mal de todas as coisas.  O que é demais nunca é o bastante e não enxergam isso. Não percebem que fazer o bem daria muito mais satisfação a ele do que ser mesquinho ao ponto de se aproveitar da sensibilidade da situação para pisar naquelas pessoas que não têm escolha. É um orgulho vazio, sem sentido, insano e – posso afirmar – desumano.
 
Também é uma atitude burra e idiota, pois se nesse momento de crise ajudassem os consumidores, até mesmo abaixando os preços – já que muitos trabalham por conta própria e nesse período não terão como ganhar dinheiro –, quando a crise passar, e ela vai passar, o estabelecimento teria muito mais clientes em longo prazo, e não apenas uma vantagem financeira de 3 meses que dará um lucro ínfimo comparado ao que ganhariam depois.
 
Mas, enquanto tivermos pessoas com mentalidade arcaica e atitudes gananciosas, estaremos à mercê daqueles que acham que estão ganhando em cima da nossa ingenuidade, de pessoas que acham que crescer em meio à crise é aproveitar da situação para explorar, extorquir e enganar o próximo.
 
O que mais me admira é que essas mesmas pessoas, donas de comércios, grandes varejistas, às vezes culpam a corrupção do governo, o malcaratismo, a desonestidade de todos os políticos, a falta de empenho, de moral, de ética, de educação e o egoísmo sórdido de nossos representantes. A minha pergunta – e também uma resposta – para essa indignação deles é: “O nosso governo não é nada mais do que um reflexo da nossa sociedade?!”.
 
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*Rui Miguel cresceu em Contagem. É formado em engenharia de rede de computadores e especialista Microsoft. Tímido e paradoxalmente extrovertido. Misterioso e intrigante, mas com um senso de humor incrivelmente inteligente e sarcástico. Em 2007, teve os primeiros sintomas do Parkinson e, depois de seis meses, o diagnóstico foi confirmado. É autor do livro “Entrando no parkinson de diversões” e, em 2017, foi nomeado comendador e profissional do ano com o blog que fala sobre “como viver a vida e não apenas sobreviver” (www.ruimiguel.com.br). Também possui um canal no YouTube onde trata do mesmo assunto.
 
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