Data de publicação: 31-03-2020 17:24:00

Foque na solução e esqueça o problema

O Boticário - Contagem
Foto: Internet/Reprodução
 
Rui Miguel*
 
Não podemos ficar exageradamente focados na busca pela solução de um problema. Uma crônica de Contardo Calligaris, famoso psicanalista residente no Brasil, ajuda a compreender que é preciso afrouxar a atenção para sermos mais atentos. O texto é chamado de “Gorilas entre nós” e faz parte da coletânea “Terra de ninguém”. Nele, você compreende como pode sucumbir quando foca em demasia em algum objeto, projeto ou plano.
 
Um teste clássico chamado “Cegueira por desatenção” apresenta dois times, um vestido de branco e o outro de preto, que trocam passes de basquete dentro de uma sala e permanecem em constante movimento. Cada um joga a bola apenas aos seus companheiros e existem duas bolas, uma para cada grupo. No meio do jogo, um gorila entra na sala, permanece por nove segundos no centro e se retira. O resultado foi que muitos voluntários não viram o gorila.
 
Essa experiência mostra que a capacidade de você perceber um objeto inesperado depende da sua similaridade com os objetos sobre os quais está concentrada a sua atenção. A desatenção no gorila ocorre porque as pessoas se concentram no time branco de maneira intensa e aplicada. Segundo Contardo, para termos uma percepção plena, é necessário um olhar não orientado e não atarefado.
 
Peter Druker citava: “Por vezes, diante de um problema, é preciso esquecê-lo e deixar a mente incubando-o”. Einsten costumava tocar violino ou ler romances de Dostoievski como recursos para desviar a atenção do problema principal e provocar a incubação. Esta mesma percepção do gorila nós temos que ter hoje ao lidar com problemas pessoais. Normalmente, quando estamos passando por uma crise, seja pessoal, financeira , de saúde, familiar, depressão ou um problema grave que não conseguimos resolver, focamos tanto nele que ofendemos o nosso próximo e brigamos com os nossos familiares e amigos.
 
Estamos tão presos na busca pela solução que não percebemos a presença do gorila na sala. A percepção de que aquilo com o que você está preocupado não é a coisa mais importante do mundo, de que seu problema não é o centro do universo e de que o mundo não gira em torno de você talvez seja o que pode te ajudar a achar uma saída. Quantas vezes nós deixamos de viver ou paramos tudo o que nos deixava felizes para resolvermos um problema que achávamos que era impossível de solucionar? E você, focado na solução, não percebeu quantas pessoas apareceram ou quantas oportunidades de companhia e de compaixão surgiram no meio da sala e você ignorou.
 
Quando você estiver enfrentando um grande problema e não estiver enxergando uma luz fraca no fim do túnel, simplesmente afaste-se. Não confunda com fugir, se esconder ou não dar importância. Estou dizendo apenas para você se afastar um pouco, parar de pensar no problema e fazer alguma coisa para relaxar, para que a sua mente possa se desligar daquilo.
 
Aproveite esse afastamento para praticar coisas de que você gosta, mas que, por falta de tempo ou por rotina do trabalho e da família, você não teve a oportunidade de continuar fazendo. Se você gosta de pintar, pinte; se gosta de jogar videogame, de correr, praticar exercícios físicos, cantar, fazer crochê, arte em biscuit, não importa. Faça alguma coisa de que você realmente goste, que te dê prazer.
 
Quando fizer isso, se afastar um pouco do seu problema e puder olhar o que te rodeia, você encontrará uma solução, e perceberá que ela é bem mais simples e lógica do que você estava imaginando. Você conseguirá enxergar soluções, momentos e pessoas que seu olhar fixo não te deixava ver nem entender. Você irá compreender que sabedoria é a melhor arma para enfrentar qualquer tipo de situação ou problema. É ela que vai te dar a perspicácia para entender que sofrer é uma questão de escolha, de você discernir se vale a pena ficar focado em um problema.
 
Então, se está sentido que o problema está aumentando e você não consegue resolvê-lo, afaste-se e entenderá que, sem fugir nem postergar soluções, quanto mais você tentar visualizá-lo de longe, menor ele ficará e será claro e perceptível que a solução sempre esteve ali, ao seu lado.
 
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*Rui Miguel cresceu em Contagem. É formado em engenharia de rede de computadores e especialista Microsoft. Tímido e paradoxalmente extrovertido. Misterioso e intrigante, mas com um senso de humor incrivelmente inteligente e sarcástico. Em 2007, teve os primeiros sintomas do Parkinson e, depois de seis meses, o diagnóstico foi confirmado. É autor do livro “Entrando no parkinson de diversões” e, em 2017, foi nomeado comendador e profissional do ano com o blog que fala sobre “como viver a vida e não apenas sobreviver” (www.ruimiguel.com.br). Também possui um canal no YouTube onde trata do mesmo assunto.
 
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