Data de publicação: 08-05-2020 20:35:00 - Última alteração: 08-05-2020 20:35:10

Resolver problemas não é inteligência, evitá-los é sabedoria

O Boticário - Contagem
Foto: Internet/Reprodução
 
Rui Miguel*
 
“Para nós, os grandes homens não são aqueles que resolveram os problemas, mas aqueles que os descobriram.”
Albert Schweitzer
 
Por que é difícil para as pessoas seguirem regras básicas, consultarem um manual de instruções ou mesmo acessar o item “Ajuda” de qualquer sistema? É muito interessante como as pessoas seguem as orientações apenas quando estão passando por algum problema especifico.
 
Bem, estou dizendo isso porque estamos, neste momento, em plena pandemia de Covid-19 e existem duas recomendações básicas: uma é não sair de casa e a outra é, se precisar sair, saia de máscara. São duas instruções simples e específicas. Se não puder fazer uma, faça a outra. E isso não é apenas para a sua proteção, mas, sim, para a de todos.
 
Porém, em vez disso, vejo na televisão um cenário bem diferente. Na reportagem, exibem centenas de cadáveres sendo enterrados em covas comunitárias e uma mulher chorando na fila do hospital, com sintomas da doença, sem conseguir atendimento.
 
Se todos tivessem acatado a orientação desde o início, não evitariam toda essa situação? Se todos seguissem as ordens médicas, não evitariam tantas mortes? Se a mulher da reportagem, que chora por não ser atendida, seguisse todas as orientações, ela não poderia ter evitado estar ali?
 
Estou parecendo meio insensível? Talvez sim, mas essa reação é necessária para que as pessoas entendam que tudo depende de cada um de nós e que, depois de não seguir as regras explicitamente instruídas, não adianta reclamar com os representantes do governo, sendo que você mesmo também não fez a sua parte.
 
Sempre é assim. Temos que sofrer uma penalidade da vida para aprendermos a ser mais preventivos do que corretivos. Sempre aprendemos a resolver os problemas em vez de preveni-los. E o pior: nunca acatamos as orientações necessárias nem prestamos atenção no que nos é ensinado, porque nos achamos autossuficientes e déspotas.
 
Um exemplo clássico vem da matemática. Como se encontra a hipotenusa? Todos que estudaram sabem muito bem calculá-la. Fomos obrigados a decorar isso mesmo que até hoje nunca tenhamos utilizado, mas nem por isso deixa de ser importante. Então, vamos lá: o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Simples, está lá a instrução. Não poderia ser mais direta e assertiva. Basta apenas somar a droga desses quadrados dos catetos. Basta seguir as instruções. Mas tem pessoas que ainda acham difícil e erram. Difícil foi a pessoa que descobriu esse cálculo. Nós apenas precisamos aplicá-lo. Basta seguir as orientações.
 
A maioria das coisas de que precisamos hoje também é assim, basta aplicar o que já foi descoberto, dificilmente você criará ou inventará alguma coisa.
 
Seja professor em suas atitudes. Se as orientações existem é porque são, de alguma forma, necessárias. Se medidas de segurança são criadas e difundidas é porque, em algum momento, esse procedimento já foi testado para chegar a um resultado.
 
Trabalhamos de uma forma muito, muito corretiva. Estou falando tanto de maneira pessoal quanto profissional. Esperamos as coisas darem errado para aplicarmos uma solução.
 
Quantas pessoas já deixaram de fazer o seguro do carro achando que nada iria acontecer e/ou porque era muito caro e, tempos depois, tiveram o veículo roubado e precisaram terminar de pagar as prestações sem sequer ter o automóvel?!
 
Isso me lembra de quando peguei carona com um amigo para o Centro de Belo Horizonte, onde, como em toda cidade grande, há dezenas de viadutos. Ele me confessou que odiava e tinha pânico de passar debaixo deles vagarosamente e de ficar parado embaixo durante um congestionamento. Ele temia que os viadutos caíssem.
 
O naufrágio do RMS Titanic ocorreu entre a noite de 14 de abril e a manhã de 15 de abril de 1912 no Atlântico Norte, quatro dias após o início da viagem inaugural, partindo de Southampton, na Inglaterra, com destino à cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Maior navio de passageiros em serviço à época, o Titanic tinham 2.208 pessoas a bordo quando atingiu um iceberg por volta das 23h40min (horário no navio) de domingo, 14 de abril de 1912. O afundamento aconteceu duas horas e quarenta minutos depois, às 02h20min de segunda-feira, 15 de abril, resultando na morte de 1.496 pessoas e em um dos desastres marítimos mais mortais – e era o maior navio do mundo.
 
O naufrágio era improvável, mas não impossível. E esse fato pode ocorrer diversas vezes na nossa vida pessoal. Não vou entrar na esfera de questões profissionais, pois isso é assunto para outro texto. Tudo que podemos evitar dar errado nós temos que evitar. Não devemos protelar uma situação ou a resolução de um problema e esperar que ele aumente para depois tentarmos remediar o caso.
 
Talvez esse erro seja uma verdade que você esconde ou um problema pessoal sobre o qual nunca comentou, pois acha que o tempo vai apagar tudo. Porém, se não o resolver, ele poderá prejudicar a sua qualidade de vida.
 
Então, amados, se você sabe que o que você está decidindo ou fazendo não traz segurança futura, se você está ciente que aquilo tem, por menor que seja, chance de dar errado, não o faça.
 
Temos que parar de fazer, construir e falar de maneira corretiva e iniciar uma era preventiva. Não precisamos esperar que milhares de pessoas morram ou que alguém seja prejudicado pela nossa falta de responsabilidade.
 
Não espere as coisas darem errado no seu casamento, na sua amizade, no seu relacionamento familiar ou de trabalho para corrigir uma situação, porque, se der errado – e vai dar –, para corrigir vai ser pior. Nesse momento, você já perdeu credibilidade, confiabilidade e pode envolver e prejudicar muitas pessoas pela sua incompetência em pensar nas consequências que uma decisão sua pode ter.
 
--
 
*Rui Miguel cresceu em Contagem. É formado em engenharia de rede de computadores e especialista Microsoft. Tímido e paradoxalmente extrovertido. Misterioso e intrigante, mas com um senso de humor incrivelmente inteligente e sarcástico. Em 2007, teve os primeiros sintomas do Parkinson e, depois de seis meses, o diagnóstico foi confirmado. É autor do livro “Entrando no parkinson de diversões” e, em 2017, foi nomeado comendador e profissional do ano com o blog que fala sobre “como viver a vida e não apenas sobreviver” (www.ruimiguel.com.br). Também possui um canal no YouTube onde trata do mesmo assunto.
 
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