Data de publicação: 13-05-2020 12:18:00

Seja você, seja estranho e deixe a sua marca

Nova Faculdade
Foto: Internet/Reprodução
 
Rui Miguel*
 
“Eu gosto do estranho, do incomum. Gosto daquilo que confunde, que permite diferentes interpretações, que fica nas entrelinhas.”
 
Martha Medeiros
 
 
Resolvi aceitar o convite de um grande amigo para jantar. Bem, como quem convida faz as honraria de se responsabilizar pelos investimentos, eu aceitei. Fomos a um bar para bebermos um pouco e comermos um tira-gosto.
 
Entramos no restaurante – que era conhecido por nós, mas nunca havíamos tido a oportunidade de frequentar – e o garçom perguntou o que desejávamos. Enquanto falávamos nossos pedidos, notei que ele não estava anotando e perguntei:
 
– Você não vai anotar?
 
– Eu esqueci a caderneta, mas pode falar que a minha memória é boa.
 
– Ok.
 
Então, eu pedi uma porção de aipim frito (ou mandioca), uma Coca-Cola (nunca pode faltar) e também uma caipirinha. Meu amigo pediu um refrigerante e uma refeição típica cubana.
 
Quando meu amigo estava pronunciando o nome dessa refeição, eu notei que o garçom, mesmo na sua espontaneidade, abanava um pouco a cabeça e balançava negativamente. Eu, intrigado com aquela negação introspectiva e silenciosa, perguntei:
 
– Alguma coisa errada?
 
E ele respondeu cabisbaixo e ainda balançando negativamente:
 
– A última vez que eu fiz essa refeição não saiu coisa boa. Não tem como o senhor pedir outra coisa, não?
 
Achei incríveis o desprendimento e a total falta de noção dele. Então, rindo, pedimos para ele nos trazer o que ele achasse melhor.
 
Jantamos, e, depois de satisfeitos, chamei o garçom e pedi para que ele buscasse a minha caipirinha para fechar o jantar. Prontamente ele se encaminhou para a cozinha.
 
Já havia se passado dez minutos e eu ainda não tinha visto o garçom passar entre nós. Mais cinco minutos e nada. Quando completou cerca de 20 minutos, vejo vindo em direção à nossa mesa o querido garçom em passos largos e afoito, e, de longe, já se desculpando. Notei que não havia nenhum um copo com bebida em sua mão. Foi quando ele chegou, estendeu as duas mãos e, para minha surpresa, disse:
 
– Olha, me desculpe (em tom sério e desconsolador). Aqui estão os limões, aqui está a cachaça, o açúcar está na mesa. Por favor, mistura aí, pois eu não estou sabendo fazer.
 
Quem poderia imaginar uma coisa dessas? Eu poderia ficar com raiva ou achar um absurdo. Poderíamos chamar o gerente e não pagar a conta. Tínhamos muitas opções, mas optamos por rir. E rimos muito da situação.
 
Aquele homem, na sua ignorância inocente e sincera, nos mostrou que ser verdadeiro e desprendido pode ser um atrativo inusitado.
 
As regras e etiquetas da sociedade não nos deixam ser transparentes no que realmente somos. As pessoas não conseguem nos enxergar de uma maneira límpida e sem máscaras ou disfarces que utilizamos para sermos moldes daquilo que queremos que os outros queiram que sejamos.
 
Evidentemente, esse caso foi bem extremo, mas nos ensinou como a inocência natural e inconsequente pode ser muito mais marcante do que uma forma física bruta e talhada para satisfazer algo ou alguém.
 
Estou dizendo isso porque esse garçom vai ficar guardado em minhas lembranças pelo resto da minha vida. Lembranças essas que não existiriam se ele fosse o profissional perfeito.
 
Nós acreditamos que para sermos notados pelas outras pessoas precisamos fazer o que todos fazem, talvez de uma maneira melhor, mas sempre a mesma coisa. Somos moldados pela mesmice de fazer sempre o que é mais fácil, o que é mais cômodo para nós, e sempre buscamos uma referência para basear nossas atitudes. Por medo ou covardia seguimos sempre o que a maioria faz para não sermos diferentes e, de alguma forma, discriminados.
 
Assim como o garçom, seja autêntico. Se você é esquisito (assim como eu), se você tem atitudes diferentes dos outros, se a sua maneira de pensar e de agir não machuca e não ofende ninguém, seja único. Tome decisões e aja conforme as suas expectativas.  Se você é ou pensa diferente de todo mundo, não tente se enquadrar no que todos querem, porque assim você será mais um na multidão.
 
Agora, se você for você mesmo, e não se importar com o que os outros pensam, tenha certeza de que marcará a vida de cada um que encontrar. Você sempre será lembrado de uma forma carinhosa, engraçada ou feliz.
 
Pessoas normais e comuns passam por nossas vidas e nem nos lembramos delas, mas aquelas com atitude, iniciativa e, principalmente, personalidade sempre serão celebradas ao nos encontrarmos com elas.
 
Há pessoas que choram por saberem que as rosas têm espinhos. Há outras que sorriem por saberem que os espinhos têm rosas.
 
--
 
*Rui Miguel cresceu em Contagem. É formado em engenharia de rede de computadores e especialista Microsoft. Tímido e paradoxalmente extrovertido. Misterioso e intrigante, mas com um senso de humor incrivelmente inteligente e sarcástico. Em 2007, teve os primeiros sintomas do Parkinson e, depois de seis meses, o diagnóstico foi confirmado. É autor do livro “Entrando no parkinson de diversões” e, em 2017, foi nomeado comendador e profissional do ano com o blog que fala sobre “como viver a vida e não apenas sobreviver” (www.ruimiguel.com.br). Também possui um canal no YouTube onde trata do mesmo assunto.
 
(O conteúdo dos artigos publicados pelo Diário de Contagem é de responsabilidade dos respectivos autores e não expressa a opinião do jornal.)
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