Data de publicação: 21-05-2020 12:35:00

A ciência se cala onde se inicia a fé

Nova Faculdade
Foto: Internet/Reprodução
 
Rui Miguel*
 
“Um pouco de filosofia inclina a mente humana para o ateísmo, mas o aprofundamento na filosofia reaproxima a mente humana da religião”.
Francis Bacon
 
Isso é uma verdade matemática. A ciência nos prova e nos dá explicação para quase todas as coisas. A ciência é a arte da razão. Quando entramos no âmbito da fé, chegamos a um nível diferente. A ciência só acredita naquilo que pode provar, e como a fé não é baseada em provas, a ciência não consegue entrar nesse assunto. Então, podemos ver que a ciência e a religião (ou a fé) não são contraditórias nem inimigas, apenas estão em lados opostos.
 
Na metade do século passado, quando a população ocidental era, em sua maioria, religiosa, o fervor e a crença num teísmo faziam parte da vida. E não aceitar que um deus existia era como dizer que o céu não era azul.
 
Isso é natural do ser humano: ter a necessidade de ter alguém como superior. Na entrada de Filipos, em Delfos, o apóstolo Paulo, no primeiro século, relatou que existia um busto com os seguintes dizeres: “Para um deus desconhecido”. A necessidade era tanta que eles tinham construído uma estátua do nada, em nome de ninguém, para um desconhecido. Eles precisavam adorar alguém ou alguma coisa.
 
Hoje, muitas pessoas vão de religião em religião para encontrarem respostas para as suas perguntas, aos seus anseios e, talvez, customizar um pouco o deus que eles querem adorar.
 
No início do século dezenove, iniciou-se uma era de avanço da ciência de uma forma inimaginável. Isso foi intensificado com mais afinco ainda depois das duas guerras mundiais. Nesse momento, com o avanço tão notório da ciência, o mundo viu com esperança o que o homem podia dar a si próprio.
 
A ciência em pouco tempo prometia cura para as doenças, retardo fenomenal do envelhecimento, fim da fome no mundo e, de alguma maneira, qualidade de vida e futuro próspero. E, então, transformaram a ciência em Deus por algum tempo. O ateísmo virou febre. Não acreditar em Deus já não era absurdo e até tonara-se plausível. Com os alunos de Darwin, a coisa ficava mais empolgante. Muitos saíram de suas igrejas e resolveram assumir a sua fé em não ter fé nenhuma.
 
Não vou ser estúpido ao ponto de dizer que a ciência não ajudou o mundo a ser um local bem melhor para viver do que 100 anos atrás. Isso é lógico. Para exemplificar, basta saber que hoje a expectativa de vida do brasileiro é de 79 anos, enquanto em 1912 era de 45 anos. Mesmo assim, com tanta tecnologia e a ciência conseguindo resultados espantosos, o mundo não viu a cura do câncer, o término do sofrimento, da violência sem medidas e da fome, o saneamento básico, a educação, o fim das guerras.
 
Quando a humanidade perdeu a esperança na ciência, todos se voltaram a Deus e retornaram às igrejas. Por isso, hoje, ser evangélico, protestante ou outra denominação a que você pertença acabou virando um pouco de modismo.
 
Sim, hoje é legal, e de certa forma apaziguador, você dizer que é cristão. Aqueles que antigamente eram tímidos em assumir, devido, talvez, a uma vergonha de suas próprias crenças, agora falam com orgulho de sua religiosidade. Essa atitude é muito significativa, pois a pessoa assumir ser espiritualizada sempre foi um tabu em sociedades ateístas, e, por mais que achemos que nossa sociedade é majoritariamente religiosa, podem ter certeza de que não é.
 
A esperança de que as coisas podem dar certo, de que um dia elas vão mudar e de que tudo tem um significado leva as pessoas a buscarem se espiritualizar. E sabe um grande motivo para as religiões crescerem de maneira abrupta? A religião seca lágrimas. A ciência, não.
 
Muitas pessoas dizem estar preparadas para a morte, que não têm medo dela, mas pode ter certeza: ninguém está preparado para lidar com a morte. Você só a aceita quando está longe dela. Quando ela estiver à sua frente, você sempre lutará para não morrer.
 
Já perceberam que o próprio fato de se pregar uma vida após a morte é um ato para dar perpetuidade à vida? Nem depois de morrermos queremos aceitá-la e nos desvanecemos por explicações que nos apaziguem.
 
No leito de morte de Voltaire – um filósofo francês da época do Iluminismo –, depois de passar grande parte de sua vida sendo ateu e não acreditando em nenhuma vida espiritual, os padres, ao benzê-lo, disseram: “Renuncia aos seus pecados e renuncia a satanás antes de morrer?”. E ele respondeu: “Padre, eu fiz coisas erradas a vida toda. Agora que eu já estou morrendo, não é hora de criar inimizades”.
 
Quando você se depara com o fim da vida, a sua fé pode ser abalada. Nesse caso, foi a fé em não ter fé nenhuma.
 
Muitas pessoas dizem ser ateias, mas, se você perceber bem, 90% delas não são. São pessoas que antes eram religiosas, mas se decepcionam com o deus que a sociedade prega ou diretamente com uma entidade religiosa. É sempre bom lembrar que “o ateu nega a existência de Deus, o cético duvida, o agnóstico não sabe”. O que eu quero enfatizar é que, hoje, as pessoas creem em um deus que é condicionado e moldado às coisas que lhe fazem bem. Se eu tiver de lutar contra outra pessoa, Deus vai me ajudar. Se eu consegui o emprego no lugar de outra pessoa que também precisava, Deus me ajudou. Se eu quiser enriquecer, Deus vai me abençoar, e se eu não conseguir, é porque Deus não quis.
 
Nós estamos criando o nosso Deus. E estamos criando-o à nossa imagem e semelhança, que são egoístas, prepotentes e apenas aceitam aquilo que lhes é explicável.
 
Por que buscamos a espiritualidade? Porque não aceitamos a vida como ela é nem o fato de não existirem respostas para as nossas perguntas. E quando isso acontece, nos acarinha o fato de sabermos que o mundo, a prática e a crença espirituais sejam uma resposta.
 
Mas é paradoxalmente incrível que busquemos respostas para questões que nos afligem em algo que também não conseguimos provar. A nossa crença de que aquilo poderá ser uma resposta já nos alivia da angústia de não sabermos nada, pois, caso contrário, não haveria nenhum sentido em viver.
 
Muitos sabem lidar com a situação e temos que admitir que, hoje – e durante grande parte da história humana –, o que faz com que a Terra não entre em um colapso existencial são as religiões.
 
Infelizmente, muitas pessoas não saberiam lidar com o fato de não existir um deus supremo ou uma força espiritual maior. Imagine o caos em que viveríamos se as pessoas não tivessem esperança em nada, se não tivessem que viver o bem em prol de uma recompensa, se não tivessem medo de não continuar a viver após a morte.
 
Não estou condenando nem defendendo as milhares de religiões que existem nem a criação de dezenas por dia. A minha dúvida é: ver um ladrão ou um assassino fazer o sinal da cruz antes de cometer um crime é bom ou é ruim?
 
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*Rui Miguel cresceu em Contagem. É formado em engenharia de rede de computadores e especialista Microsoft. Tímido e paradoxalmente extrovertido. Misterioso e intrigante, mas com um senso de humor incrivelmente inteligente e sarcástico. Em 2007, teve os primeiros sintomas do Parkinson e, depois de seis meses, o diagnóstico foi confirmado. É autor do livro “Entrando no parkinson de diversões” e, em 2017, foi nomeado comendador e profissional do ano com o blog que fala sobre “como viver a vida e não apenas sobreviver” (www.ruimiguel.com.br). Também possui um canal no YouTube onde trata do mesmo assunto.
 
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