Data de publicação: 15-09-2020 17:30:00 - Última alteração: 15-09-2020 17:30:03

A carência whatsappiana

O Boticário - Contagem
Foto: Reprodução Internet
 
Rui Miguel*
 
Quem inventou a regra ou a lei que diz que eu sou obrigado a responder todos os questionamentos ou perguntas que estão marcados de verde no meu aplicativo de mensagens? Se, por um acaso, eu deixo de responder essas mensagens e a pessoa sabe que eu já as li, as próximas perguntas que ela fará serão:
 
- Mas você estava on-line e não respondeu? Por quê? É alguma coisa comigo?
 
Pensando bem, não são perguntas, mas, sim, uma condenação retórica.
 
E por que eu sou obrigado a responder no mesmo momento? Quero dizer: hoje, eu não tenho a liberdade de ver uma mensagem e responder depois. Uma mensagem que chega no MEU celular. O que piora a situação é que, se eu não responder nem der uma satisfação, na próxima vez que eu vir a pessoa em um evento social, ela estará com raiva e ainda vai me encarar e dizer:
 
- Você não respondeu, né?!
 
E, então, vem a pior das perguntas, que nunca deveria ser feita:
 
- Por quê?
 
Quem disse que eu preciso justificar o porquê de não querer responder? Ninguém tem essa obrigação, mas sabe por que as pessoas têm esse péssimo hábito? Por conta da nossa cultura de ter sempre uma desculpa para não magoar ninguém.
 
Imagine se eu fosse sincero e dissesse: “eu não respondi porque não quis ou não estava a fim”?! Ou melhor, “não estava com saco para falar com você”. Ou: “tinha coisa melhor para fazer do que falar com você, estava ocupado arrumando minha gaveta de meias”.
 
Um exemplo de como essa atenção desmedida é exagerada e inserida por uma perspectiva circunstancial é que, se você mandar uma mensagem de manhã e eu desligar a minha conexão de rede, depois ler a sua mensagem e apenas voltar a ligar a minha internet na noite desse mesmo dia, vai aparecer no seu aplicativo que eu li a mensagem naquele horário noturno, mas, na verdade, eu já tinha lido de manhã. O mais interessante nisso tudo é que você não vai ficar com raiva.
 
O motivo? A nossa carência de atenção imediatista, de sermos o centro das atenções e acharmos que as nossas prioridades e as nossas urgências são mais graves ou mais importantes do que as dos outros.
 
Estamos tão conectados, hoje, e tão necessitados de atenção! Estamos tão envoltos em uma comunicação airada e tão imersos em nosso mundo gigantescamente social, cheio de seguidores e de centenas de amigos para nos gabar, que ficamos ofendidos quando um deles não nos dá a atenção à qual achamos que temos direito.
 
É por esse motivo que eu acho que as redes sociais, ou a quantidade de amigos que você tem em exagero nelas, não mostram o quanto você é popular, mas, sim, o quanto você e solitário e precisa de atenção.
 
Então, não meça o valor das suas amizades pelo tempo que a pessoa demora a te responder, pois todos têm as suas prioridades e as suas vidas. Você não pode usar a futilidade do seu imediatismo como valor para medir o quanto alguém se importa com você. Não se ofenda facilmente. A finitude da nossa vida não pode ser tão miserável ao ponto de perdermos tempo com coisas mesquinhas ao sermos envoltos pelo contraponto da nossa evolução.
 
--
 
*Rui Miguel cresceu em Contagem. É formado em engenharia de rede de computadores e especialista Microsoft. Tímido e paradoxalmente extrovertido. Misterioso e intrigante, mas com um senso de humor incrivelmente inteligente e sarcástico. Em 2007, teve os primeiros sintomas do Parkinson e, depois de seis meses, o diagnóstico foi confirmado. É autor do livro “Entrando no parkinson de diversões”. Em 2017, foi nomeado comendador e profissional do ano com o blog que fala sobre “como viver a vida e não apenas sobreviver” (www.ruimiguel.com.br). Também possui um canal no YouTube em que trata do mesmo assunto.
 
(O conteúdo dos artigos publicados pelo Diário de Contagem é de responsabilidade dos respectivos autores e não expressa a opinião do jornal.)
Comentários

Charge


Flagrante


Boca no Trombone


Guia Comercial


Enquetes


Previsão do Tempo


Siga-nos:

Endereço: Av. Cardeal Eugênio Pacelli, 1996, Cidade Industrial
Contagem / MG - CEP: 32210-003
Telefone: (31) 2559-3888
E-mail: redacao@diariodecontagem.com.br