Data de publicação: 19-01-2021 17:25:00

A bondade não pode ser invertida

O Boticário - Contagem
Foto: Reprodução Internet
 
Rui Miguel*
 
Ontem, vendo o noticiário da TV em casa, o repórter estava entrevistando um policial que estava instruindo a sociedade sobre os procedimentos que nós, cidadãos, temos de adotar para não chamar a atenção de ladrões na rua. Isso é um absurdo! Pensem bem como nós estamos invertendo todos os valores. Eu, que sou um cidadão que paga impostos, que junta dinheiro todo santo dia para poder ter, ao fim de 3 ou 4 meses, o poder para comprar um celular de última geração, que paga pela segurança da sociedade, assim como todos os que pagam impostos, não posso andar na rua com o meu aparelho?
 
Para que serve um celular se não posso usá-lo na rua? Nesse caso, o meu ficaria em casa e, assim, não cumpriria os seus propósitos móveis e viraria um telefone fixo.
 
Em suma: os policiais deveriam dizer o seguinte aos ladrões que tentarem roubar alguém: “Tomem cuidado, fiquem de olhos abertos, pois, caso tentem assaltar ou furtar alguma pessoa, nós vamos estar ali para prendê-los e vocês irão sofrer as consequências dos seus atos, já que estão infringindo a lei”.
 
Essa é a mensagem correta. Mas não. O policial me instrui a como esconder o meu aparelho novo para que o ladrão não possa me roubar. Entenderam que os valores estão totalmente invertidos?
 
Isso me remete a uma situação que passei com o meu carro. Quando estava indo para o shopping, sozinho, já no anoitecer de um sábado, passei distraidamente em um buraco e o pneu furou. Como sempre sou uma pessoa prevenida, abri o porta-malas para pegar o estepe. E onde ele estava? Não sei. Estou procurando até hoje.
 
A noite já havia caído. Eu estava próximo a uma comunidade um pouco perigosa. Comecei a ficar com medo. Depois de uns 20 minutos em que estava esperando o reboque da seguradora vir me acudir, aparece uma camionete da Polícia Militar. Fiquei bem mais tranquilo, pois, nesse momento, no breu de uma avenida, eu já estava apavorado. Fiquei feliz. Pelo menos acreditava que os policiais ficariam comigo até o reboque chegar, o que não iria demorar mais que 10 minutos.
 
Foi aí que o carro da polícia se aproximou, um dos policiais abaixou o vidro e proferiu as seguintes palavras eloquentes e informativas: “Senhor, cuidado. Não fica parado aí não, pois a área aqui é perigosa”. Fui ouvindo isso ao mesmo tempo em que via a viatura passar por mim lentamente, e o policial que disse essas belas e acalentadoras palavras fechando o vidro como se tudo estivesse na mais perfeita paz e harmonia.
 
O que ele estava pensando? Que eu parei ali para fazer um piquenique? Ou que estava naquele lugar sombrio porque eu gosto de coisas esquisitas e de ficar sozinho à beira da estrada com o capô do carro aberto? Os sinais não estavam muito claros para perceber que eu estava precisando de ajuda? Não precisava ser nenhum Sherlock Homes para desvendar isso. Mas, em suma, estou aqui, não estou? Então, é porque tudo deu certo.
 
O que me indigna é que nós, seres humanos, estamos nos acostumando com o que é ruim, o que é mal, invertendo os valores, negligenciando certezas e verdades que deveriam ser absolutas, renunciando a direitos explícitos de viver.
 
Nós estamos esquecendo de lutar pela nossa liberdade. Alguns dizem que quando vieram ao mundo ele já estava assim, então, quem sou eu para mudar esses padrões? Se todo mundo segue esse rebanho, não sou eu que vou ser a ovelha negra, correto?
 
A vida é muito boa e muito curta para ser tão insignificante ou para você passar tanto tempo aqui e não fazer a diferença para nada ou ninguém. Não estou falando de fama ou fortuna, mas de fazer a diferença, de mudar, no mínimo, um grão de lugar.
 
Quando acostumamos com o que é irreal e nos deixamos ser guiados pelo mal, estamos explicitamente concordando com essas decisões. O mais importante não é a ação de mudar, mas, sim, a estagnação de aceitar isso como normal.
 
Eu sei que ninguém vai sair por aí tentando prender ladrões de celulares ou fazendo justiça ao Deus dará, mas o que eu quero salientar é que não devemos nos acostumar com a ideia de que nós, que estamos certos e fazendo as coisas certas, devemos nos esconder.
 
Isso é absurdamente inaceitável. Como podemos fazer isso ou como os governantes irão se situar eu sinceramente não sei. Apenas acredito que quando você não questiona mais nada, a sua vida perde completamente o sentido e o que te vale agora é a morte, pois pior do a putrefação da carne é a falta de alegria de espírito para viver uma vida que vale a pena.
 
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*Rui Miguel cresceu em Contagem. É formado em engenharia de rede de computadores e especialista Microsoft. Tímido e paradoxalmente extrovertido. Misterioso e intrigante, mas com um senso de humor incrivelmente inteligente e sarcástico. Em 2007, teve os primeiros sintomas do Parkinson e, depois de seis meses, o diagnóstico foi confirmado. É autor do livro “Entrando no parkinson de diversões”. Em 2017, foi nomeado comendador e profissional do ano com o blog que fala sobre “como viver a vida e não apenas sobreviver” (www.ruimiguel.com.br). Também possui um canal no YouTube em que trata do mesmo assunto.
 
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