CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, está em liberdade e usa tornozeleira eletrônica
Foto: BP Money
Foto: BP Money
Especialistas em regulação afirmam que os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes deveriam se declarar suspeitos e alertam para risco sistêmico provocado por interferências políticas no sistema financeiro.
Um caso que envolve um banco de pequeno porte, até recentemente desconhecido do grande público, transformou-se em uma crise institucional com reflexos no sistema financeiro, no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Supremo Tribunal Federal (STF).
Para o economista e professor de regulação Cleveland Prates Teixeira, da Fipe-USP e da FGV-Law, os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes deveriam se declarar suspeitos em processos relacionados ao Banco Master, diante de vínculos que, segundo ele, comprometem a confiança pública nas decisões judiciais.
“O problema não é apenas financeiro, é institucional. Houve uma contaminação do ambiente regulatório e político que assusta”, afirma o especialista.
O Banco Master entrou em colapso após a Polícia Federal deflagrar a Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes bilionárias, que levou o Banco Central (BC) a determinar a liquidação do Master para evitar riscos maiores ao sistema financeiro nacional.

Ministro relator do TCU Jhonatan de Jesus é filiado ao Republicanos e tem quatro mandatos de deputado federal
Foto: Câmara dos Deputados
Liquidação, reação política e tensão institucional
A decisão técnica do Banco Central provocou reações inesperadas. Nos primeiros dias de 2026, o mercado foi surpreendido com o anúncio de que o TCU abriria uma inspeção para apurar o processo que levou à liquidação do banco.
A medida, determinada pelo ministro Jhonatan de Jesus, gerou preocupação entre especialistas e agentes do mercado sobre uma possível tentativa de reverter ou enfraquecer a decisão do BC.
Segundo Cleveland Teixeira, não cabe ao TCU interferir na atividade regulatória finalística do Banco Central, cuja autonomia técnica é fundamental para a estabilidade econômica.
Para ele, esse tipo de interferência cria um efeito perigoso: intimida reguladores, estimula decisões tardias e aumenta o risco sistêmico, ao permitir que instituições financeiras problemáticas continuem operando.
A reação do setor financeiro foi imediata. Onze entidades, incluindo a Febraban, divulgaram nota conjunta em defesa do Banco Central, para reforçar a importância de preservar decisões técnicas contra pressões políticas ou judiciais.

Dias Toffoli viajou em avião particular junto com advogado do Banco Master
Foto: AFP via Getty Images
Suspeição no STF e crise de credibilidade
O caso ganhou ainda mais repercussão ao alcançar o Supremo Tribunal Federal. Dias Toffoli, sorteado relator de um recurso do Banco Master, decidiu trazer o caso para o STF e impor sigilo aos autos.
Pouco depois, veio à tona que o ministro viajou para o Perú em avião particular ao lado de um advogado ligado ao banco, para assistir o jogo da final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras. O fato levantou questionamentos públicos.
Em paralelo, surgiram informações de que o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes mantinha um contrato milionário com o Banco Master de cerca de 40 milhões de reais.
Embora o procurador-geral da República tenha arquivado o pedido de investigação por não identificar crime, o especialista sustenta que o problema central é outro.
“Suspeição não é confissão de culpa. É uma medida de proteção à instituição e à credibilidade do julgamento”, afirma Teixeira, que relembra a própria experiência como conselheiro do Cade, quando se declarou suspeito por vínculos muito menos relevantes.

Escritório da esposa de Moraes tinha contrato com Banco Master
Foto: AFP via Getty Images
Risco sistêmico além do financeiro
Para o professor, o maior perigo do caso não é apenas a quebra de um banco, mas o risco regulatório e institucional criado quando decisões técnicas passam a ser questionadas ou politizadas.
Ele alerta para o chamado risco moral: a mensagem de que gestores podem assumir riscos excessivos ao acreditar que, no futuro, poderão conseguir proteção política ou judicial.
“Isso muda os incentivos do mercado. Bancos passam a correr mais riscos, reguladores ficam receosos de agir e quem paga a conta, no fim, é a sociedade”, resume.
Desfecho ainda indefinido
O ministro do TCU recuou e suspendeu a inspeção, para levar o tema ao plenário, que deve analisá-lo em janeiro.
No STF, o caso segue cercado de sigilo e questionamentos. Para especialistas, enquanto não houver transparência, definição clara de competências e respeito à autonomia regulatória, o episódio do Banco Master continuará sendo visto como um alerta grave sobre a fragilidade institucional brasileira.
Fonte: MSN


